sábado, 21 de novembro de 2009

Quilograma



Não sei bem a veracidade do que penso.
Pensando bem, a verdade é uma utopia. Há tantas certezas quanto deuses, elas sempre vêm para suprirmos o medo de nos surpreendermos.
Mas de certo tenho dito: Não sei bem a veracidade do que penso. Esta veracidade pouco casa com a verdade, peguei e tornei a verdade objeto ilustrativo! A verdade é uma convenção, já a veracidade uma constatação.
Não é que a mim eu me pareça abstrato, nunca! Tudo que há em mim é concreto como o ar. Até meus sonhos pesam em kg.
Mesmo assim, em algo impalpável transmutou-se minha mente. Eu que quando pensava corroia o universo, quantas vezes apaguei horas em piscares de olhos? Ando transubstanciando!

Ah! Eu me disse que morderia a língua. Eu me disse!
Queria que eu mesmo me visse, visse minha cara!
Eu me disse!

Mas não há motivo para tanto alarde!
Acalma peito descompassado!
Acalmado consigo discorrer sobre temas mais arriscados.

Atenta-te que não direi sobre frivolidades, embora admita que a Palavra usada em seguida anda desvalorizada. Então pega e desvaloriza ainda mais ela, arranca o ranço que lhe conferiram, cria algo novo com tudo que te é respeitável, tira toda a posse que esta palavra conferia. Execremos todas aquelas bocas vomitando acerca dela!

Por fim,
sei que agora amo, aliás, sempre amei, mas hoje digo sem nó verbal.
Amo, porque amar é o mínimo que podemos fazer.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Incen'diário


Estive pensando, aqui em meu espaço. Algo ocorre, superando o esperado!
Tomei d’algum bebedouro, juro que recordo, que pulsava de um desejo forte.
Líquido quente, dia quente... ultimamente tudo tem ardido em Fogo!
Esta tarde saltou descompassadamente. A alma saltou de mim!
Crê no que te digo? Foi passear acompanhada...
Isto explica, da minha parte, este comportamento animalesco.




Um tempo; preciso de ares... o ar tem me faltado com freqüência. São essas fogueiras nos quadrantes !




Cuida-te, alma, minha querida, todas que me rodeiam, pois me acostumo facilmente a isto tudo. Ando um tanto mudo, uma fome de reavivar os nervos!

Aviso que, de certo logo cedo, devoro-te por dentro.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Bifurcação



Fantasiai! Quero-te, mas com o medo de querer, cria-se atmosfera pesada, embriagante, de desejos misturados a repulsa.
Quero-te em explícito, em confusão, a insegurança é teu porto não seguro de orgasmos fantasiosos lidos entre teus cílios, entre seios, entre braços semifechados; em asas arqueadas ameaçando aventuras...
Finges que não é contigo que finjo que não te alarmo, que não te atiro um desconcertante raio, pois não desvio meus olhares. Não mais.
O ar é pesado, é morno, é úmido, visto que estou tão perto de teus lábios... Teu alento...
Mel vaporizado, vapor entorpecente exalado dos abraços.
Não, não é eterno... Da chama o combustível cessa, mas é tão vagaroso... Queima apesar do frio que adentra as janelas.

sábado, 31 de outubro de 2009

Vaticínio



Ao meu desejo sou todo atento, mas se nuvens sempre vejo, nefelibatando a vida, ora desleixo, ora carícias, tudo ignora as sinapses, ignorantemente perdidas.
Foi assim a tua visita, a dormência por conta dum incentivo químico, rasgou o véu duma tranqüila existência, gastei horas entre beijos cínicos, não soube bem as intenções dessa vivência.
E de certo ando meio na cautela, aliás, a conspiração anda comprimindo meus desejos... Há dois véus, nesses tempos rancorosos, torniqueteando meus membros oníricos.
Recebi tua visita...
Recebi todo meu pretexto, teu pretexto, talvez cantássemos sempre esse encontro, disparadas flechas ao meu tronco, a chuva é seiva de delícias atormentadas!
Rosas, Rosa, se lhe dessem outro nome, continuarias com espinhos. Sobra-me saber se em meio a tantas anedotas, o perfume valha todo o risco.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A liquidez dos fatos



    Verti-me em gotas doces, doces gotas, doces ondas de torpor incerto. Acendi
meu fumo olhando a urna do cachimbo, caldeirão vivo que estalava em fino cheiro.

“Quem toca com cautela a janela de meu quarto? É a chuva a fazer-me
serenata?”

    Sim, e quem mais seria? Garoa que me agarra, que me agüenta a gargalhada, que
me guiará fluída.
    Sinto nuvens pairando, cobrindo meu corpo junto a meu sorvo, meus sorvos,
meus longos e calmos mergulhos espectrais. Ah, esse céu de Vila Velha é único deste
meu ângulo, ouço o som nauseante e azedo das ruas de comércio da Glória, o cheiro do
suor das pessoas que atravessa dois andares e mistura-se à minha festa - penetras
malqueridos e mal-amados.
    Não fecharei a janela agora, o dia está belo - belo e cinza - e aproveitarei das
passadas cinzas e viajarei nesse rio. A chuva é rio que passa em minha vida.
Subo no banco, debruço-me na janela, sinto o vento povoado de chocolate, suor,
fumaça, cachimbo e vinho. Escalo a janela de meu quarto. O vento é até bom, pois não
cobra seus carinhos...

    “Olha minha nave, minha condução, translúcida e gotejada... prenderei um
pouco a respiração e pegarei carona pela estrada...”

    Um pulo, um vôo no espaço, mergulhando numa gota desprendida do telhado.
Rapidamente nado e pelo outro lado saio. Outro pulo, outra nave, e outra, e outra...
    Sigo e subo num torpor sagrado não sentindo mais meu corpo molhado.
    Longe das gotas, dos gritos das pessoas, das sirenes e dos olhares dum sadismo
curioso, vejo, espatifado, o Sol rasgar as nuvens e o sal de meus olhos cansados.
    Verti-me em tragos e em tragos bebeu-me a Vida... Esvazio-me pelas ruas, pelos
bueiros. A vida me foi um tanto breve por conta de goles mal tomados...

sábado, 24 de outubro de 2009

Adendo



O que esperas de mim? Hoje fui acometido de um estupor! Saí de minha lógica.
Os humores eram misturados, as garrafas já trincavam próximas aos pés, entorpeci-me diante ti.

Odeio momentos de embaraços, onde me enrosco em mim mesmo, posteriormente censuro-me e me tenho temor. Lamento formidavelmente minha falta de manejo social, quisera saber as palavras adequadas, aquelas que certamente não ilustram o momento, mas apresentam soluções imediatas.

Se tratando de meu peito, pouco se dá por exato, então peço inquestionável, quanto a isso, resguardo. Sou vazio há muito tempo... estruturas há muito inabitadas, duvidáveis. Dói-me a alma, não posso prometer-te momentos sempre afáveis.

Mas explica-me a fraqueza que me confiro? Serás tu que já me absorves?

E como da chuva a terra sorve, teu olhar sempre perdido, desfocadamente focado, bebe-me em goles, e eu estacado!

Guia-me, por um momento vos deixo. Canto este intento, e mesmo cá, gritando aos ventos, podes por tudo ter verdade.

Não me exijas, ai de mim! Cada hora adiciona-me um fado!
Mas, talvez em nossa existência, visto do mundo toda demência, sejamos ambos remediáveis!

Gemeu em meu ombro a vida, algum espasmo de sonho, e tento diante a falta de sono, consolar-me neste silêncio morno de meu quarto, e os deuses sabem como detesto esta prostração que venho me propondo.



Certo dia acordarei como de assalto e, feito assaltante, roubar-te-ei-a de ti.



terça-feira, 13 de outubro de 2009

Raposa e Lebre



Obedeci ao que os lábios pediam, ungidos de vontades próprias, varrido por um vôo, o
vento nos unia em magnetismo. Mas eram assim, tão loucas as idéias dum copo de vidro
transbordadas à realidade que vi num canto o sorriso de vontades por muito verdadeiras.
Não cabem rimas, não cabem versos a desejos tão profundos, a devaneios tão corretos,
onde a chuva disfarça os gostos que tenho contido. Foram muitas as vezes que minh’alma
velou-me – corpo vestido de alegrias – alegorias passageiras, mas, vez ou outra, inda tenho
explodido na boca os prazeres do açúcar ao lado do amargo da língua... Talvez, algumas
vezes, as línguas se ocupassem diante olhos vazios.